INTERAÇÃO

Dois Mil Inove - As Negociações Coletivas e a Crise

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Por Heli Gonçalves Moreira

Sócio-diretor da HGM Consultores

Julho/2009

 

Parafraseando uma conhecida organização bancária, temos que reconhecer que o movimento sindical brasileiro realmente inovou, de forma planejada, outros por intuição e alguns até por acaso, ao adotar a estratégia de ignorar a crise, quando do envio das primeiras pautas de reivindicações do ano.

 

 

Os pleitos sindicais, que todos sabemos, são repetitivos dos anos anteriores, pouco ou nada influenciados pelas assembléias para elaboração de pautas, incluíram além da reposição da inflação, aumentos reais de salários, sem se importar se as empresas estavam demitindo pessoas, operando com capacidade ociosa elevada ou mesmo com encerramento de atividades.

 

 

Três fatores influenciaram sobremaneira esta estratégia:

 

1. O reajuste de 12% do salário mínimo, impactando categorias de baixa especialização como construção civil, serviços de limpeza, vigilância etc.

 

2. Montadoras e autopeças, setores de grande visibilidade, reagindo positivamente ao impacto da crise, favorecidos pelo incentivo governamental.

 

3. O setor da construção civil surgindo como locomotiva das negociações salariais em 2009, como o caso da Bahia e de São Paulo, conquistando reajustes salariais expressivos. O DIEESE, em recente publicação demonstrou que de 100 processos de negociação coletiva realizados no primeiro semestre de 2009, 78% obtiveram ganhos acima da inflação, igual performance alcançada no ano anterior, quando foram mapeadas 706 negociações.

 

O que se observou na outra ponta, foi uma postura reativa das empresas e entidades patronais, aceitando as pressões impostas pelas mobilizações e pelos movimentos grevistas. Apesar de toda a situação, incluindo grande número de demissões, as empresas não se comunicaram de forma assertiva com os seus empregados a respeito da crise e de suas consequências a ponto de impedir as ações de mobilização sindical.

 

O que se pode esperar como cenário trabalhista sindical para o segundo semestre? Alguns fatores influenciarão este cenário:

 

• O segundo semestre é palco das negociações de categorias profissionais de grande visibilidade e impacto na economia, como: petroleiros, montadoras, autopeças, bancários, metalúrgicos, papeleiros, químicos, cimenteiros etc.

Holofotes certamente representam um forte atrativo para os interesses políticos destas novas lideranças sindicais que recentemente galgaram postos deixados pelos seus antecessores que nos últimos anos se transferiram para cargos políticos em diferentes esferas (federal, estadual e municipal) e em diferentes escalões.

 

• A redução contínua do INPC no primeiro semestre (queda de 23,6% de junho/09 em relação a dezembro/08), quando projetada para o segundo semestre, se apresenta como um incentivo importante à mobilização sindical por maiores aumentos reais. Afinal o que conta para o sucesso sindical em relação à negociação coletiva é o número final, INPC mais o aumento real, que impacta o salário do trabalhador.

 

• Nada indica, pelo menos até o momento, que as empresas e as entidades patronais mudarão sua postura reativa em relação à estratégia sindical de continuar ignorando a crise. Os dirigentes empresariais continuam focados e preocupados com o enfrentamento da crise, via recuperação de mercado, aumento da eficiência e da produção e redução de custos.

 

A análise destes fatores conduz ao raciocínio de que o modelo estratégico, vitorioso no primeiro semestre, será mantido e reforçado. Como sempre, estas ameaças representam uma excelente oportunidade para as áreas de recursos humanos, relações trabalhistas e comunicação interna, responsáveis pelos processos de negociação coletiva e pelo clima organizacional.

 

 

Um processo de comunicação estruturada via lideranças internas, que garanta que os empregados entendam e assimilem mensagens claras sobre a real situação, é um bom instrumento de mobilização na direção dos interesses da recuperação da empresa, tendo como contrapartida um reajuste menor nos salários.


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