INTERAÇÃO

Falta de bom senso nas negociações coletivas

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Raramente o bom senso dá as caras nas negociações coletivas no Brasil. Por que ele tem estado tão pouco presente? O que há de errado em reconhecer que estamos diante de uma crise sem precedentes e que não há sentido em se negociar aumento real ou participação nos lucros? Por que não priorizar a sobrevivência da empresa e a preservação dos empregos como interesse comum entre o capital e o trabalho?

Matérias publicadas na Folha de São Paulo dão conta que o acordo dos trabalhadores da Scania foi fechado em setembro, incluindo um reajuste de 5%, um abono em janeiro e uma antecipação do 13º salário de 2016 e, como contrapartida a garantia no emprego até agosto de 2016. Questões similares de suma importância foram resolvidas pela GM de São Caetano e Volkswagen de São Carlos.

 

Um sinal de que o bom senso esteve presente nas mesas de negociação. Afinal, a indústria automobilística é uma das mais impactadas pela crise atual e a sua sobrevivência deve ser um objetivo comum entre empresas, trabalhadores e sindicatos.

 

Desde 2008, os movimentos sindicais vêm adotando uma estratégia vencedora nos processos de negociação coletiva - ignorar a crise e, na improvável hipótese de sua existência, ela é um problema da empresa e não dos trabalhadores.

 

Trata-se de uma estratégia carente de sabedoria e razoabilidade, revestida de falta de bom senso, uma vez que o que está em jogo é a sobrevivência do negócio, do qual emana a garantia dos empregos e salários, ainda que reduzidos durante a crise.

 

Entretanto, desde a sua adoção, essa estratégia tem mantida a incrível capacidade de promover a complacência e calar negociadores e lideranças empresariais, deixando a sensação de que poucos estão dispostos em ser desmancha prazer dessa ilusão coletiva, apesar de possuírem competência e informações capazes de corrigir o rumo desse senso comum distorcido da realidade.

 

Para mudar essa trajetória que está impactando os já combalidos recursos das empresas, é necessária a prática do bom senso que, de acordo com Aristóteles, é o elemento central da conduta ética, uma capacidade virtuosa na busca do meio termo para encontrar as ações corretas, que a nossa sociedade tanto requer nesse momento.

 

Do lado sindical, o caminho já definido vêm sendo trilhado com sucesso, ainda que questionável do ponto de vista da sobrevivência do negócio.

 

Vasculhando o noticiário encontramos infindáveis manifestações de entidades patronais e empresas alegando esperar bom senso por parte dos sindicatos nos processos de negociação. Pelo que se tem visto vão ter que aguardar a situação piorar muito ou fazer diferente.

 

Do lado empresarial, a inércia e a complacência, devem ser substituídas pela indignação com os rumos das negociações coletivas.

 

A história nos ensina que grupos bem informados e conscientes coletivamente, nas condições certas, se saem melhor do que pessoas pensando e agindo isoladamente.

 

A prática nos mostra que líderes internos, capacitados e comprometidos com a ética e com os valores organizacionais, são capazes de criar e sensibilizar uma massa crítica de trabalhadores.

 

Aí reside a inexplorada Força da Liderança, capaz de introduzir o bom senso nas assembleias e nas mesas das negociações, bem como ser desmancha prazer de uma ilusão coletiva que ajuda levar o conjunto para um buraco mais profundo, de onde será mais difícil emergir.

 

A melhor forma para sobreviver à uma crise e sair dela fortalecido é fazer diferente (adotando novas atitudes), melhor (do que antes e do que os outros) e juntos (à única saída).

 

Heli Gonçalves Moreira


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