INTERAÇÃO

Não dá mais tempo!

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Por Heli Gonçalves Moreira

Sócio-diretor da HGM Consultores

Setembro/ 2006.

 

Seja porque “quem tem telhado de vidro não atira pedra”, invalidando a oportunidade da oposição liderar um processo de impeachment; seja porque o candidato do PSDB não é conhecido no Nordeste e não há tempo para isso; seja porque o povão brasileiro “está nem aí” para as falcatruas dos governantes desde que não falte o que comer; mesmo considerando o último escândalo da compra do dossiê Serra, a julgar pelos resultados recorrentes das pesquisas, o (quase) fato é que o destino do País para os próximos quatro anos já está definido. Outro fato real é que inúmeras decisões empresariais de alto impacto econômico, social e político, estão aguardando ansiosamente o dia primeiro de outubro próximo. Entre estas se encontram decisões sobre investimentos, reduções de atividades ou fechamentos de fábricas, com conseqüentes desligamentos coletivos, mudanças significativas em políticas e sistemas de gestão empresarial etc. No clima do “já ganhamos”, no último final de semana o Presidente do PT já se arriscou em declarar que no próximo mandato não haverá espaço para uma flexibilização da legislação trabalhista, gerando reflexos negativos não somente para os empregadores, mas também para os próprios trabalhadores. Portanto, no campo das relações capital – trabalho, restarão alguns espaços e oportunidades para mudanças, das quais pelo menos duas são bastante previsíveis: a famigerada reforma sindical e uma intensificação da atuação dos órgãos fiscalizadores, liderada pelas Delegacias Regionais do Trabalho, muito bem estruturadas para isso. A reforma sindical, que neste ano já ganhou ímpetos de ser obtida gradualmente à revelia do Congresso Nacional, via Medidas Provisórias, certamente será priorizada pelos Sindicatos, especialmente aqueles filiados à CUT, via membros importantes no Executivo, como o caso do atual Ministro do Trabalho. Neste caso, três temas e suas conseqüências merecem especial atenção: Tema: Oficialização das Centrais Sindicais Conseqüência: Liderança e participação direta nos processos de negociação coletiva. Tema: Fim da data – base Conseqüência: Desestímulo ao fechamento dos Acordos e Convenções do Trabalho. Tema: Organização sindical nos locais de trabalho Conseqüência: Instalação dos Comitês de Representação ou Comissões de Fábrica No campo de atuação dos órgãos fiscalizadores, o Ministério do Trabalho já deu algumas mostras: •Instrução Normativa 64, de 26.04.06, que orienta os Agentes de Fiscalização sobre os regimes de trabalho em turnos, sejam eles em forma de revezamento ou em forma de horários fixos. •Atuação integrada das Delegacias Regionais do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Tribunais Regionais do Trabalho, com relação aos intervalos reduzidos (menos de 60 minutos) para refeições. Este cenário, aliado a um controle inflacionário, mantendo os baixos índices atuais de apenas um dígito e considerando ainda que as carteiras de benefícios das empresas estão nos seus limites, indica reflexos imediatos nas relações capital – trabalho, especialmente nos processos de negociações coletivas, confirmando uma tendência de mudança dos seus focos tradicionais nas reivindicações, usualmente voltados para aumentos salariais e aumento dos benefícios, para novos focos como: condições de trabalho (segurança, fadiga etc.), organização do trabalho (regimes de trabalho em turnos, jornadas etc.), políticas de gestão (terceirização, remuneração, isonomia salarial, participação nos lucros etc.), disciplina (assédio moral). A percepção do processo da negociação coletiva como um maxi evento das relações capital–trabalho, torna a data–base um marco anual, a qual continuará servindo apenas aos propósitos político – sindicais, criando um período de tensão no clima organizacional, com reflexos diretos na produção e na qualidade. Nestas circunstâncias, outros valores organizacionais relevantes como: estilo de gestão, liderança, modelo de participação, benefícios e serviços ao pessoal, políticas e práticas de recursos humanos, são colocados à prova, por conta das posições antagônicas dos sindicatos e seus simpatizantes, próprias do modelo até então adotado, podendo evoluir para um conflito coletivo velado ou aberto. Pelo menos quatro soluções são demandadas: •Zelar de forma permanente e contínua pelos valores organizacionais, atualizando-os e adequando-os à evolução das pessoas e do mercado, bem como promovendo-os interna e externamente. •Adotar ações efetivas para que o processo de negociação coletiva seja conduzido, tanto quanto possível, pela empresa e não pelo sindicato. •Ter o comando efetivo do processo de comunicação interna, voltado para antecipar-se às iniciativas do sindicato e com foco na comunicação ética e persuasiva. •Desenvolver um processo de mobilização gerencial para a aprovação das propostas da empresa. Como não dá mais tempo para virar o jogo e quando do próximo Interação já estaremos no day after, o melhor negócio é se preparar viver intensamente o quadriênio 2007/2010.


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