INTERAÇÃO

O Modelo Sindical Brasileiro - Autêntico versus Pelego

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Por Heli Gonçalves Moreira

Sócio-diretor da HGM Consultores

Outubro/ 2007.

 

E o que as empresas tem a ver com isso? Quase tudo já se falou na mídia nos últimos dias a respeito da famigerada distribuição dos 10% da contribuição sindical compulsória, que representa uma soma cujos números são controversos, entre R$ 70 e R$ 140 milhões por ano, às Centrais Sindicais recém oficializadas.

 

Os termos são radicalmente antagônicos, enquanto que o primeiro é enaltecedor, o segundo é depreciativo das lideranças sindicais que os ostentam. O fato é que, indiferentes a tudo, as lideranças sindicais brasileiras, pregadoras do modelo de sindicalismo autêntico, mudaram de posição de forma radical, indicando claramente que a “grana” fala mais alto.

 

O que estas lideranças não imaginavam é que poderia aparecer algum deputado “bem intencionado” tentando jogar uma pá de cal nas intenções de se ter um caixa mais reforçado, como meio para viabilizar uma atuação mais efetiva das centrais sindicais. As últimas notícias dão conta que o Ministro do Trabalho e Emprego editou uma portaria criando um grupo de estudos formado por lideranças sindicais, visando estudar um modelo para substituir gradualmente a atual contribuição sindical por uma contribuição negocial.

 

Estes são os pontos que interessam, de fato, aos dirigentes empresariais: as novas formas emergentes de atuação das centrais sindicais na busca de fontes de renda. Se a corda continuar solta e, a depender das lideranças empresariais elas continuarão, as centrais, com muito dinheiro em caixa o qual, supondo de forma otimista, será eticamente utilizado, terão um campo aberto para promover inúmeros estragos nas relações trabalhistas e sindicais brasileiras.

 

Um destes estragos refere-se aos temas de gestão sobre os quais hoje as empresas já têm dificuldades em fazer valer suas prerrogativas ou direitos legais, certamente serão tratados pelas centrais em âmbito nacional, dificultando sobremaneira a vida de todos nós. Entre estes temas podemos citar três que apenas a sua citação em mesa de negociação provoca irritação e revolta dos negociadores sindicais, independente do bem que possam promover aos próprios trabalhadores:

 

• Regime de Trabalho em Turnos com Horários Fixos. 

 

• Banco de Horas. 

 

• Participação nos Lucros ou Resultados em Valores Proporcionais aos Salários Outro estrago, talvez de maiores proporções, está relacionado ao fato de que, para fazer jus ao título de central, as mesmas deverão comprovar filiações de sindicatos e estes de seus associados.

 

O que muita gente ainda não percebeu é que está ocorrendo uma grande negociação, em nível nacional, entre as chamadas centrais, visando composições que as credenciem numericamente como tais e daí, permitir o acesso às verbas das contribuições sindicais. Tem sindicato correndo pra todo lado, numa verdadeira corrida ao ouro.

 

No futuro, se a nova portaria do Ministro do Trabalho der frutos, a receita virá de uma contribuição negocial, uma espécie de comissão. Convenhamos, ninguém está disposto a pagar comissão se o serviço prestado não corresponder. Portanto, as empresas têm e terão mais ainda, tudo a ver com isso. Então, o que fazer?

 

Gostem ou não alguns negociadores patronais, o fato é que este modelo que vem sendo praticado, enchendo os Acordos e Convenções Coletivas com cláusulas inócuas ou já previstas em lei, transferindo itens tipicamente de gestão para o âmbito das negociações, engessando as empresas ou mesmo fazendo concessões inoportunas e inadequadas, visando uma boa convivência, já está ultrapassado.

 

As empresas devem, de forma ousada, inteligente e urgente (re)criar suas políticas e práticas de relacionamento com as suas lideranças internas, com os seus empregados, com os sindicatos laborais e com os órgãos fiscalizadores. A lição de casa para os dirigentes empresariais é:

 

• Defender suas prerrogativas de gestão de pessoas com muita determinação sob pena de terem que dividir suas mesas de trabalho com algumas lideranças sindicais.

 

• Atuar decisivamente nas suas entidades patronais de maneira que representem de fato seus reais interesses. A omissão, como ocorreu na maioria das categorias econômicas é, certamente, a principal causa dos desvios atuais.

 

• Treinar suas lideranças internas, preparando-as para a nobre função de conduzir pessoas para alcançar os resultados planejados.

 

• Desenvolver boas políticas e práticas de relacionamento, de comunicação interna e de valorização dos seus benefícios e serviços ao pessoal, visando manter ou resgatar o respeito e a confiança dos seus colaboradores.

 

Mesmo assim, convém permanecer sempre alerta e ter sempre à mão um Plano de Contingências atualizado, pois a tarefa será muito árdua, considerando que a sombra de um terceiro mandato presidencial volta a escurecer o cenário político (e sindical) brasileiro.


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