PÁGINA RÁPIDA

Contribuição do Éverson Craveiro

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Por Éverson Craveiro

Parceiro da HGM Consultores

Novembro de 2012

 

O fomento ao trabalho em equipe, as denominadas gestões participativas e a administração por processos, reduziram a distância entre os trabalhadores e os comandos. Por outro lado, essa forma de envolver o trabalhador na vida organizacional tem ficado mais por conta de aproveitar seu “comprometimento” para benefício da empresa. Não se costuma observar comprometimento da empresa com o trabalhador, além do cumprimento das leis e acordos trabalhistas. É um comprometimento de mão única.

Ainda que tenha eficácia para os objetivos das empresas, essa cultura aparentemente participativa não afeta a ação sindical. O motivo é simples: a participação é apenas aparente e unidirecional. O trabalhador sabe que não tem estabilidade e nem aumento significativo em seus ganhos por conta dessa mudança. Prova disso é na hora de negociar a participação nos lucros ou resultados, ocasião em que as empresas sempre preferem utilizar os resultados como parâmetro, não raro colocando metas inatingíveis em troca de benefícios financeiros de pequeno significado.

Não bastasse isso, os líderes das empresas (chefes), ainda mantidos na condição de cargos de confiança, na maior parte das vezes só conseguem melhorar sua situação salarial a reboque dos acordos coletivos firmados entre sindicato e empresa com vistas aos “colaboradores”.

Nesse sentido, um líder escolhido pela empresa só consegue disputar espaço com um líder sindical se este último for muito ruim, por isso entendendo não ser merecedor de confiança dos trabalhadores.

Uma empresa não terá nunca a participação e o comprometimento de seus trabalhadores - da forma que têm comprometimento com uma escola de samba, uma igreja, um partido político ou uma equipe desportiva, por um motivo essencial – por uma simples razão: a empresa não ajuda as pessoas a serem elas próprias e não dá a elas um sentido de identidade social. O trabalho ajuda as pessoas a terem orgulho de si e lhes dá um profundo sentido de identidade social – o emprego, não.

Nas empresas, como em todo aglomerado humano, ainda mais em ambiente de confinamento, as pessoas estabelecem relações no plano informal. Simpatias, antipatias, afinidades, diferenças, amor e ódio. À margem do trabalho, as pessoas compartilham seus sonhos, dificuldades e conquistas, com outras pessoas nas quais confiam, e com as quais, até mesmo por uma questão de sobrevivência, criam vínculos de cumplicidade. Essa trama de relações, que escapa ao controle aparente do trabalho, é que na verdade mantém as pessoas vivas no melhor sentido do termo. É como conseguem expressar a interioridade, ao lado dos papéis que foram contratadas para desempenhar.

Por mais permissiva que seja uma empresa no que diz respeito às manifestações de seus trabalhadores, a condição de trabalho assalariado sempre tem um ingrediente de poder a favor de quem emprega. Por esse motivo, o trabalhador mantém uma distância prudente de pessoas que podem lhes representar uma ameaça direta ou indireta. O líder da empresa não disputa espaço com o líder sindical, porque eles atuam em diferentes níveis dos relacionamentos: o da empresa no nível formal e o do sindicato no nível informal.

Mas vai além. Algumas empresas, por convicção ou por oportunismo, fomentam a criação de organizações paralelas de trabalhadores dentro das fábricas. Associações, Comissões, Comitês, etc., visando abrir um canal direto de comunicação e de negociação com os trabalhadores. Isso, claro, além de práticas bizarras como o “café da manhã com o presidente”, que mais servem para constranger o coitado do trabalhador.

Empresas que fazem isso por convicção, pelo desejo de criar mecanismos que facilitem o relacionamento rápido e eficaz da administração com os trabalhadores, visando resolver problemas pontuais antes que se avolumem e se transformem em focos de conflito, costumam divulgar o desejo e, não raro, propõem regras mínimas de representatividade e deixam o processo por conta dos trabalhadores.

Empresas que fazem isso por oportunismo estão mais interessadas em esvaziar a representação sindical do que em criar mecanismos de discussão e resolução de problemas pontuais diretamente com os trabalhadores. Os indícios do oportunismo começam pela forma de constituição da proposta que, vinda da empresa, portanto de cima para baixo, já anuncia as intenções: os assuntos a serem tratados, a representatividade, os critérios para candidatura, etc. Não é raro membros serem escolhidos por indicação das chefias ou metade pela empresa e metade pelos trabalhadores. Também não raro setores ou departamentos inteiros ficarem sem representantes porque são mais críticos e reivindicadores. Essas empresas tendem a trazer para a discussão com os trabalhadores assuntos que fogem da alçada de uma associação ou comissão, sabendo que só podem ser objeto de negociação com os sindicatos, com o objetivo de antagonizar os trabalhadores com seu órgão representativo de classe.

Iniciativas oportunistas devem ser combatidas, pois a intenção é maldosa e visa lograr os trabalhadores e enfraquecer sua entidade de representação. Cabe ao dirigente sindical, é claro, a obrigação de apontar as armadilhas e se recusar a homologar os produtos das negociações diretas das comissões com a empresa, naquilo que extrapolem os assuntos pontuais e que dependam de acordo legal. Afinal, ninguém é dono do trabalhador, ainda mais agora que as empresas o definem como adulto. Mas o dirigente sindical é seu representante, e tem o dever de mantê-lo informado dos acontecimentos em que se insere nas relações do trabalho.

Apenas para contrapor alguns pontos segue minha visão abaixo sobre outros aspectos relevantes:

Uma empresa vive em função de negociações. A negociação é a essência de seu relacionamento com os ambientes internos e externos. Negocia com seus fornecedores, com seus clientes, com seus credores, com o governo e algumas vezes com seus concorrentes. Negocia individualmente com seus trabalhadores e coletivamente com o sindicato que os representa. Um sindicato de trabalhadores, portanto, é uma força de mercado com o qual empresa precisa saber lidar. Sindicato existe de fato e de direito e é uma conquista de trabalhadores de todo o mundo, historicamente construída sobre lutas que deixaram inúmeros mártires. Sua existência e seu papel não estão para serem questionados, mas apenas administrados com competência. É preciso lembrar que a estrutura sindical dos trabalhadores tem, também de fato e de direito, uma contrapartida patronal, cuja legitimidade ninguém questiona. Que poder tem uma FIESP, por exemplo, que está sempre recepcionando presidentes, governadores e ministros.

A grande verdade é que sindicato e empresa disputam a preferência do trabalhador. Sorte dele! Por mais cuidadosa que seja uma empresa no atendimento aos direitos de seus trabalhadores, a presença de um sindicato que bem exerce o seu papel faz com que esse cuidado seja redobrado.

O que incomoda as empresas é que os sindicatos atuam de forma independe da hierarquia sobre a qual elas criam as escadas de seus poderes, sem que a elas devam qualquer justificativa. No fundo, as empresas não podem aceitar que a entidade que representa os “seus funcionários” possa ter autonomia e poder. É democracia em excesso para o entendimento e arrogância de muitos empresários e executivos.

Indefeso mesmo é o trabalhador cujo poder de barganha é muito limitado. É praticamente um refém de seus fornecedores, empregadores, credores e do governo, com mínima inserção decisória em aspectos da vida econômica, social e política.

Sua condição de isolamento na vida não permite que possa fazer pleno uso dos direitos que tem como “cliente” e “contribuinte”, dois papéis de cidadania onde o resultado final se torna praticamente o mesmo – o de mero pagador de contas - não raro sem os benefícios correspondentes, principalmente na condição de contribuinte, da qual não pode escapar. São as expressões cínicas – ele não é contribuinte do Estado; é obrigado a pagar o que lhe é imposto – ele não é colaborador da empresa; é vendedor de sua força de trabalho.

Quanto mais o tempo passa, mais percebemos que o anunciado liberalismo é ideologia que tem sentido único – serve para dizer ao trabalhador que ele deve viver ao sabor da própria sorte. As grandes nações, tidas como liberais, são as que criam as maiores barreiras para proteção de seus produtos e mercados. Os empresários brasileiros vivem historicamente as portas do governo em busca de subsídios e de financiamentos, em condições de vantagem que um trabalhador nunca poderá almejar. Para o trabalhador estão disponíveis as financeiras, os cartões de crédito e toda uma gama de instituições que praticam os mais abusivos juros do planeta. O Estado é um verdadeiro predador, que avança de modo crescente no bolso do trabalhador (em última instancia é ele que paga todos os impostos pelo mecanismo de repasse), para custear seus próprios desmandos.

Esse tem sido o liberalismo tupiniquim. Mesmo a nossa democracia, convenhamos, é uma piada, pois todos sabem que as leis não se aplicam de forma igual aos diferentes. Para nós democracia tornou-se sinônimo de escolher governantes por intermédio do voto direto.

Sinto-me ridículo em negociar cesta-básica, vale-transporte, vale-alimentação ou qualquer outra coisa que o trabalhador deveria ter dinheiro para comprar pelo salário que recebe. Diante do argumento que salários geram encargos, acaba sendo preferível para o dirigente sindical passar a vergonha de defender e aceitar essas “conquistas” do que tornar ainda mais difícil a vida dos trabalhadores que ele representa.

É igualmente vergonhoso, ao menos para mim, negociar planos de saúde, bolsas de estudo, refeitório e até mesmo transporte para os trabalhadores. Também nesses casos o trabalhador deveria ter dinheiro para pagar. Mas, salários geram encargos. A continuar nessa tendência, estaremos logo mais inaugurando a neo-escravatura – a empresa cria senzalas para resolver o problema da habitação e o homem trabalha apenas em troca de gêneros alimentícios, roupas, transporte, saúde e educação – em troca de coisas dedutíveis, que não geram encargos. E dizem que isso só acontece no campo.

Ridículo maior é o trabalhador precisar recorrer aos planos de saúde e ao ensino privado. Nosso país prima, historicamente, por incorporar hábitos de primeiro mundo, mas de praticar salários e distribuição de renda de terceiro mundo. Nesse ponto, não há como negar que os empresários são mais sensíveis que os políticos, até mesmo porque estão mais próximos das dificuldades do povo, tomando por parâmetro as dificuldades de seus trabalhadores. O Estado que cobra das empresas o seu papel social, não exerce o seu próprio.

Levar à mesa de negociações reivindicações que deveriam estar sendo dirigidas aos administradores públicos é um mal necessário – para o trabalhador, para o sindicato e para a empresa. O que não costuma acontecer, infelizmente, é uma parceria dessas três forças – trabalhador, sindicato e empresa – atuando junto ao poder público para que os recursos provenientes de impostos sejam alocados em serviços de saúde, educação e transportes. É essa visão maior que leva muitos dirigentes sindicais para os caminhos da política partidária, embora possam exercer ações de natureza política sem a ocupação de cargos públicos.

O poder de voto do trabalhador, na verdade um dos poucos poderes que ele que realmente pode exercer, tem sido pouco e mal empregado nos períodos eleitorais.

Politizar a categoria é obrigação do dirigente sindical, bem como abrir espaços de reivindicação e negociação também junto aos representantes do poder público.

Nesse sentido, empresas conscientes poderiam ser solidárias. Não custa ao dirigente sindical mover esforços junto a empresas para que elas entendam que devem cobrar do Estado aquilo que ele deixa de fazer, sobrando à elas, empresas, o atendimento dessas lacunas e omissões de governo. Diante de riscos de mercado, não custa às empresas buscar o entendimento e a solidariedade dos trabalhadores e dos sindicatos para que somem esforços na defesa dos interesses de manutenção e crescimento do setor. A possibilidade dessas práticas só é possível para forças que tenham portas abertas umas para as outras e um bom nível de respeito e de confiança mútua.


 


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